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Menopausa vivida: o que dizem as mulheres além dos sintomas

A menopausa costuma ser abordada, na maioria das vezes, a partir de uma perspectiva médica, com foco em sintomas físicos e tratamentos hormonais. No entanto, o artigo “Depoimentos de mulheres sobre a menopausa e o tratamento de seus sintomas”, publicado na Revista da Associação Médica Brasileira, propõe um olhar diferente e necessário: a escuta da experiência subjetiva das próprias mulheres. Trata-se de um estudo qualitativo que dá voz às vivências femininas nesse período de transição, permitindo compreender a menopausa não apenas como um evento biológico, mas como uma experiência emocional, social e simbólica.
Um dos pontos mais marcantes do artigo é justamente a diversidade de percepções. As mulheres não vivenciam a menopausa de forma homogênea. Enquanto algumas relatam sofrimento intenso, outras descrevem esse momento com mais naturalidade e até com certo alívio, especialmente em relação ao fim do ciclo menstrual.
Essa variação revela algo fundamental do ponto de vista psicológico: a experiência da menopausa é mediada por fatores subjetivos, culturais e históricos. Ou seja, não se trata apenas do que acontece no corpo, mas do significado que cada mulher atribui a essa fase. Os depoimentos evidenciam sentimentos ambivalentes. Há relatos de desconfortos físicos, como ondas de calor e alterações no sono, mas também surgem questões relacionadas à identidade, à feminilidade e ao envelhecimento. Para muitas, a menopausa é associada a perdas, como a fertilidade e a juventude, o que pode impactar a autoestima e a forma como se percebem no mundo.
Por outro lado, algumas mulheres relatam uma sensação de liberdade. A ausência da menstruação pode ser vivida como um alívio, e esse momento da vida pode abrir espaço para novas formas de se relacionar consigo mesma e com o próprio corpo. O artigo também traz contribuições importantes ao discutir o tratamento dos sintomas. Observa-se que a adesão às terapias, especialmente à reposição hormonal, não depende apenas de indicação médica, mas também de crenças, medos e informações que circulam socialmente. Muitas mulheres demonstram receio em relação aos riscos do tratamento, enquanto outras depositam grande expectativa nele como solução para os desconfortos. Esse movimento revela a importância da escuta qualificada e do diálogo entre profissional de saúde e paciente.
Do ponto de vista psicológico, esse aspecto é central. A forma como a mulher compreende seu corpo e o tratamento influencia diretamente suas escolhas e sua relação com o cuidado. Outro ponto relevante é o papel do contexto social. Os depoimentos mostram que a menopausa ainda é cercada por silêncios e tabus. Em muitos casos, falta espaço para compartilhar experiências, o que pode intensificar sentimentos de isolamento.
Nesse sentido, o artigo contribui para ampliar a compreensão da menopausa como um fenômeno que ultrapassa o biológico. Ele evidencia a necessidade de uma abordagem mais integral, que considere não apenas os sintomas, mas também a subjetividade, a história de vida e o contexto de cada mulher.
Como resenha, podemos dizer que o estudo cumpre um papel importante ao humanizar o tema. Ao trazer a voz das mulheres, ele rompe com uma visão exclusivamente técnica e abre espaço para uma escuta mais sensível e complexa.
Para a prática clínica, especialmente na psicologia, o artigo reforça a importância de acolher essa fase como um processo de transição que pode mobilizar diferentes emoções e significados. Mais do que tratar sintomas, é fundamental compreender o que a menopausa representa para cada mulher. No fundo, o que o artigo nos mostra é que a menopausa não é apenas um evento do corpo. É uma experiência vivida, sentida e interpretada de formas únicas.

DE LORENZI, Dino Roberto Soares et al. Depoimentos de mulheres sobre a menopausa e o tratamento de seus sintomas. Revista da Associação Médica Brasileira, São Paulo, v. 54, n. 4, p. 299-304, ago. 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-42302008000400013 . Acesso em: 12 abr. 2026.

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