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Mostrando postagens de dezembro, 2025

“Parasocial”: a palavra de 2025 que revela nossos vínculos modernos — e o que a psicologia tem a dizer sobre isso

Recentemente, o Cambridge Dictionary elegeu parasocial como a Palavra do Ano de 2025. Mas o que esse termo, até então mais usado em contextos acadêmicos, nos diz sobre como estamos vivendo hoje — especialmente nas redes sociais, com celebridades, criadores de conteúdo, personagens fictícios e até inteligências artificiais? O que significa “parasocial”? De acordo com o Cambridge Dictionary, “parasocial” descreve uma conexão que alguém sente com uma pessoa famosa — ou personagem de livro/filme/TV, ou até uma IA — mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Traduzindo no bom e velho português: é aquela sensação de “conhecer íntima e profundamente” alguém que, na verdade, vive num universo diferente — e que provavelmente nem sabe que você existe. Por décadas esse fenômeno foi associado à televisão, roteiros e ídolos distantes. Mas hoje, com redes sociais, streaming, podcasts e inteligência artificial, a “intimidade” parasocial se multiplicou — e com ela, o impacto emocional. Por que “par...

“Rage bait”: a palavra do ano da Oxford — e o que isso diz sobre nós

Todo ano a Oxford escolhe uma Palavra do Ano — uma expressão que captura o clima cultural do momento. Em 2025, o termo eleito foi “rage bait”. E, apesar do nome em inglês parecer meio distante, o fenômeno é muito mais próximo do que a gente imagina. Afinal, o que é rage bait ? “Rage bait” é qualquer conteúdo criado com a intenção de provocar indignação — posts que cutucam, inflamam, irritam, polarizam, e fazem você clicar, comentar, discutir, compartilhar. Não importa se a pessoa concorda ou discorda: importa que ela reaja. É o famoso: “Quanto mais raiva, mais engajamento.” E isso funciona porque o algoritmo ama emoção intensa — e a raiva, infelizmente, rende mais do que quase qualquer outra emoção. Por que caímos nesse tipo de armadilha emocional? A psicologia tem algumas respostas bem claras: Nosso cérebro é viciado em economia de energia Quando somos afetados por algo que gera raiva, o cérebro entra no modo reação: é mais rápido reagir do que refletir. A amígdala (centro...

Scrooge e a Psicologia da Transformação: o que o velho avarento nos ensina sobre mudança

Poucos personagens da literatura são tão emblemáticos quanto Ebenezer Scrooge, o velho avarento de Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Sua figura rígida, fria e indiferente é tão marcada que virou sinônimo de mesquinharia e dureza emocional. Mas o que talvez passe despercebido é que Dickens criou, ali, um retrato psicológico preciso de alguém profundamente ferido — e mostrou como a mudança humana, mesmo quando difícil, é possível. Neste texto, vamos olhar para Scrooge pela lente da psicologia: o que o tornou quem ele era, o que abriu espaço para a mudança, e como essa transformação pode inspirar pessoas reais. Quem é Scrooge? Um homem endurecido por suas próprias defesas À primeira vista, Scrooge parece simplesmente mau: grosseiro, avarento, emocionalmente distante, incapaz de empatia. Mas, psicologicamente, ele é um exemplo claro de alguém que desenvolveu defesas rígidas para sobreviver a experiências dolorosas. Solidão na infância Dickens nos mostra um garoto deixado sozi...

O Coelho e a Tartaruga: uma leitura psicanalítica sobre tempo, desejo e o ritmo singular de cada sujeito

A fábula clássica O Coelho e a Tartaruga costuma ser lida como uma lição de moral simples: a pressa é inimiga da perfeição, a constância vence a impulsividade. Mas, quando olhamos pela lente psicanalítica, emergem camadas mais profundas — sobre desejo, narcisismo, modos de existir e a relação singular de cada sujeito com o tempo. O Coelho: velocidade como defesa O coelho corre porque pode — e talvez porque precisa. Sua velocidade, quando vista simbolicamente, pode ser compreendida como uma defesa: uma resposta ao desamparo, ao medo de não ser “bom o bastante”, à necessidade de provar constantemente seu valor. Na Psicanálise, observamos que certas hiperperformances surgem para tamponar angústias. O coelho não tolera o intervalo, o vazio, a pausa. A corrida o protege de encarar a própria fragilidade. É o sujeito acelerado, tomado pelo ideal de eu, capturado pela fantasia de potência. A Tartaruga: o tempo próprio como ato de resistência A tartaruga, por outro lado, caminha num ri...

Quando o final do ano pesa: por que é tão difícil lidar com as emoções das festas e confraternizações

À primeira vista, o final do ano costuma ser associado a luzes, celebrações, reencontros e esperança. Mas, na prática clínica, é comum ouvir o oposto: um cansaço emocional profundo, uma sensação de cobrança, e até um desejo silencioso de que tudo passe rápido. As festas de fim de ano podem ativar emoções intensas — e muitas vezes contraditórias. Enquanto o mundo incentiva alegria, pertencimento e celebração, dentro de muitas pessoas há um campo emocional mais complexo: lembranças difíceis, lutos não elaborados, relações fragilizadas, cansaço acumulado, e uma sensação de inadequação diante das expectativas sociais. Por que o final do ano desperta emoções tão fortes? Época de balanços, conscientes ou não. Mesmo sem perceber, revisamos o ano: o que foi conquistado, o que ficou suspenso, o que doeu. Essa retrospectiva interna pode tocar feridas ainda abertas. A pressão para estar bem. O discurso “é tempo de celebrar” cria uma norma implícita: sentir-se feliz. E quando isso não aco...

Odete Roitman: por que essa vilã ainda nos hipnotiza? Uma análise psicológica

A icônica vilã da novela Vale Tudo continua sendo uma das personagens mais marcantes da teledramaturgia brasileira. Mas por que, afinal, Odete Roitman nos prende tanto — mesmo sendo cruel, manipuladora e completamente sem limites emocionais? A psicologia tem algumas pistas. Odete Roitman: a personificação da “sombra” Carl Jung chamava de Sombra o conjunto de aspectos nossos que evitamos enxergar: ambição desmedida, agressividade, vaidade, controle. Odete Roitman é justamente uma projeção viva disso. Ela: manipula sem culpa; exerce poder com elegância e frieza; diz verdades que muitas pessoas pensam, mas jamais diriam; ultrapassa limites: todos eles. No fundo, ela toca em partes humanas que tentamos esconder. Fazemos isso sem perceber: projetamos nela o que tememos reconhecer em nós, mas também aquilo que gostaríamos de ter em pequenas doses — como coragem ou assertividade. Por que nos apegamos a personagens fictícios? Parece paradoxal: sabemos que eles não existem, mas so...

A escrita terapêutica como caminho para externalizar sentimentos e se reencontrar

Há momentos em que o que sentimos transborda — mas, paradoxalmente, não encontra formas claras de ser dito. Às vezes, as emoções se misturam como um emaranhado difícil de traduzir em palavras, e o corpo sinaliza antes da consciência. Nessas horas, a escrita terapêutica pode se tornar uma ponte: um espaço seguro onde aquilo que está difuso ganha forma, cor e contorno. A escrita, quando usada como recurso terapêutico, não exige talento literário, coerência perfeita nem bonito acabamento. Ela pede apenas honestidade consigo mesma. Ao colocar no papel aquilo que se vive internamente, criamos a possibilidade de olhar para a emoção a partir de um novo ângulo — mais gentil, mais lúcido e, muitas vezes, mais verdadeiro. Por que escrever ajuda a externalizar sentimentos? A escrita organiza o que está caótico. Em vez de sentimentos soltos, a palavra escrita cria início, meio e fim. O que parecia uma nuvem pesada torna-se algo nomeável — e nomear é o primeiro gesto de cuidado. Escrever é u...

A Banalização da Rotulação em Saúde Mental nas Redes Sociais

A saúde mental, por muito tempo, foi um tema marginalizado e cercado de estigmas na sociedade. Contudo, com o aumento da visibilidade nas redes sociais, discussões sobre questões psicológicas, como ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, ganharam destaque. Embora esse aumento na visibilidade seja positivo, também surge um fenômeno preocupante: a banalização da rotulação em saúde mental. A rotulação excessiva e muitas vezes imprecisa de comportamentos e sentimentos nas redes sociais pode prejudicar a compreensão pública dos transtornos mentais e reforçar estigmas. Este artigo aborda como as redes sociais contribuem para a banalização da rotulação em saúde mental, discutindo suas implicações para indivíduos e para a sociedade. A Ascensão das Redes Sociais e a Visibilidade da Saúde Mental Nos últimos anos, as redes sociais transformaram-se em plataformas essenciais para o debate sobre saúde mental. Organizações, profissionais de saúde e indivíduos têm usado essas plataform...