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Personalidade Antissocial: o que a psicologia compreende — e o que ainda precisamos desmistificar

Quando falamos em “personalidade antissocial”, muitas pessoas imaginam automaticamente alguém frio, perigoso ou incapaz de sentir empatia. Na cultura popular, esse termo se tornou sinônimo de violência extrema — um estereótipo que pouco ajuda na compreensão real do fenômeno humano por trás desse diagnóstico. Na psicologia e na psiquiatria, porém, estamos falando de algo muito mais complexo: um padrão persistente de funcionamento emocional e relacional marcado por impulsividade, dificuldade de reconhecer normas sociais e, muitas vezes, uma história de vida permeada por traumas precoces, negligência, violência e rupturas afetivas. Escrever sobre isso exige cuidado. E é justamente esse cuidado que abre espaço para o entendimento — e não para o julgamento. O que é, afinal, o Transtorno de Personalidade Antissocial? Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o Transtorno de Personalidade Antissocial envolve um padrão de: desrespeito persistente pela...

A fé sob o olhar da Psicologia da Religião: sentido, vínculo e enfrentamento do sofrimento

A fé é uma das experiências humanas mais antigas e universais. Presente em diferentes culturas, épocas e tradições, ela atravessa a história das civilizações e também as histórias individuais. Para a Psicologia da Religião, a fé não é analisada a partir de sua veracidade teológica, mas como um fenômeno psicológico, relacional e simbólico, que influencia profundamente a forma como as pessoas constroem sentido, se vinculam e enfrentam o sofrimento. Nesse campo de estudo, a fé é compreendida como parte da vida psíquica — uma experiência que pode sustentar, organizar, proteger, mas que também pode, em determinadas condições, gerar conflitos internos e sofrimento emocional. Fé como experiência de sentido Um dos principais aportes da Psicologia da Religião é a compreensão da fé como um sistema de produção de sentido. Diante da dor, da perda, da finitude e da imprevisibilidade da vida, o ser humano busca narrativas que organizem sua experiência interna e deem coerência à existência. Vi...

Análise psicológica do conto João e o Pé de Feijão

O conto “João e o Pé de Feijão” pode ser compreendido como uma narrativa simbólica do processo de amadurecimento psíquico e da passagem da infância para uma posição mais autônoma diante da vida. À primeira vista, trata-se de uma história simples sobre coragem e aventura; porém, sob uma lente psicológica, revela conflitos profundos ligados à dependência, à escassez, à transgressão e à construção do self. João vive em um contexto de privação material e emocional, marcado pela ausência da figura paterna e por uma relação simbiótica com a mãe. Essa configuração aponta para um ambiente de insegurança, no qual a sobrevivência depende da obediência e da manutenção do conhecido. A vaca, único bem da família, representa a fonte de sustento, mas também a repetição de um modo de existir limitado e estagnado. Ao trocar a vaca por feijões mágicos, João realiza um ato de desobediência que, do ponto de vista psicológico, pode ser entendido como uma transgressão necessária. Ele rompe com a lógica ...

Quando o adeus já se anuncia — luto antecipatório, espiritualidade e o papel da psicologia

Às vezes, a perda começa antes do “dia do adeus”. O diagnóstico de uma doença grave, a deterioração de alguém querido ou a consciência da finitude podem provocar uma dor antecipada — um sofrimento que mistura medo, saudade, ansiedade, culpa, esperança e desesperança. Esse processo longo, difuso, muitas vezes invisível aos olhos de quem não vive diretamente, é o que chamamos de luto antecipatório. Para quem experiencia esse tipo de dor, a espiritualidade e o cuidado psicológico podem se tornar companheiras fundamentais — caminhos de acolhimento, simbolização e (re)significação da vida e da morte. O que é luto antecipatório — sob a luz da psicologia e da psicanálise O luto antecipatório é entendido como o “enlutamento” que ocorre antes da perda real — quando a morte ou a perda já é esperada. Esse tipo de luto envolve não apenas o sofrimento frente à possibilidade da perda futura, mas também o luto de vivências perdidas no presente: saúde, autonomia, projetos, sonhos, relação plena c...

“Parasocial”: a palavra de 2025 que revela nossos vínculos modernos — e o que a psicologia tem a dizer sobre isso

Recentemente, o Cambridge Dictionary elegeu parasocial como a Palavra do Ano de 2025. Mas o que esse termo, até então mais usado em contextos acadêmicos, nos diz sobre como estamos vivendo hoje — especialmente nas redes sociais, com celebridades, criadores de conteúdo, personagens fictícios e até inteligências artificiais? O que significa “parasocial”? De acordo com o Cambridge Dictionary, “parasocial” descreve uma conexão que alguém sente com uma pessoa famosa — ou personagem de livro/filme/TV, ou até uma IA — mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Traduzindo no bom e velho português: é aquela sensação de “conhecer íntima e profundamente” alguém que, na verdade, vive num universo diferente — e que provavelmente nem sabe que você existe. Por décadas esse fenômeno foi associado à televisão, roteiros e ídolos distantes. Mas hoje, com redes sociais, streaming, podcasts e inteligência artificial, a “intimidade” parasocial se multiplicou — e com ela, o impacto emocional. Por que “par...

“Rage bait”: a palavra do ano da Oxford — e o que isso diz sobre nós

Todo ano a Oxford escolhe uma Palavra do Ano — uma expressão que captura o clima cultural do momento. Em 2025, o termo eleito foi “rage bait”. E, apesar do nome em inglês parecer meio distante, o fenômeno é muito mais próximo do que a gente imagina. Afinal, o que é rage bait ? “Rage bait” é qualquer conteúdo criado com a intenção de provocar indignação — posts que cutucam, inflamam, irritam, polarizam, e fazem você clicar, comentar, discutir, compartilhar. Não importa se a pessoa concorda ou discorda: importa que ela reaja. É o famoso: “Quanto mais raiva, mais engajamento.” E isso funciona porque o algoritmo ama emoção intensa — e a raiva, infelizmente, rende mais do que quase qualquer outra emoção. Por que caímos nesse tipo de armadilha emocional? A psicologia tem algumas respostas bem claras: Nosso cérebro é viciado em economia de energia Quando somos afetados por algo que gera raiva, o cérebro entra no modo reação: é mais rápido reagir do que refletir. A amígdala (centro...

Scrooge e a Psicologia da Transformação: o que o velho avarento nos ensina sobre mudança

Poucos personagens da literatura são tão emblemáticos quanto Ebenezer Scrooge, o velho avarento de Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Sua figura rígida, fria e indiferente é tão marcada que virou sinônimo de mesquinharia e dureza emocional. Mas o que talvez passe despercebido é que Dickens criou, ali, um retrato psicológico preciso de alguém profundamente ferido — e mostrou como a mudança humana, mesmo quando difícil, é possível. Neste texto, vamos olhar para Scrooge pela lente da psicologia: o que o tornou quem ele era, o que abriu espaço para a mudança, e como essa transformação pode inspirar pessoas reais. Quem é Scrooge? Um homem endurecido por suas próprias defesas À primeira vista, Scrooge parece simplesmente mau: grosseiro, avarento, emocionalmente distante, incapaz de empatia. Mas, psicologicamente, ele é um exemplo claro de alguém que desenvolveu defesas rígidas para sobreviver a experiências dolorosas. Solidão na infância Dickens nos mostra um garoto deixado sozi...