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A fé sob o olhar da Psicologia da Religião: sentido, vínculo e enfrentamento do sofrimento

A fé é uma das experiências humanas mais antigas e universais. Presente em diferentes culturas, épocas e tradições, ela atravessa a história das civilizações e também as histórias individuais. Para a Psicologia da Religião, a fé não é analisada a partir de sua veracidade teológica, mas como um fenômeno psicológico, relacional e simbólico, que influencia profundamente a forma como as pessoas constroem sentido, se vinculam e enfrentam o sofrimento. Nesse campo de estudo, a fé é compreendida como parte da vida psíquica — uma experiência que pode sustentar, organizar, proteger, mas que também pode, em determinadas condições, gerar conflitos internos e sofrimento emocional. Fé como experiência de sentido Um dos principais aportes da Psicologia da Religião é a compreensão da fé como um sistema de produção de sentido. Diante da dor, da perda, da finitude e da imprevisibilidade da vida, o ser humano busca narrativas que organizem sua experiência interna e deem coerência à existência. Vi...

Análise psicológica do conto João e o Pé de Feijão

O conto “João e o Pé de Feijão” pode ser compreendido como uma narrativa simbólica do processo de amadurecimento psíquico e da passagem da infância para uma posição mais autônoma diante da vida. À primeira vista, trata-se de uma história simples sobre coragem e aventura; porém, sob uma lente psicológica, revela conflitos profundos ligados à dependência, à escassez, à transgressão e à construção do self. João vive em um contexto de privação material e emocional, marcado pela ausência da figura paterna e por uma relação simbiótica com a mãe. Essa configuração aponta para um ambiente de insegurança, no qual a sobrevivência depende da obediência e da manutenção do conhecido. A vaca, único bem da família, representa a fonte de sustento, mas também a repetição de um modo de existir limitado e estagnado. Ao trocar a vaca por feijões mágicos, João realiza um ato de desobediência que, do ponto de vista psicológico, pode ser entendido como uma transgressão necessária. Ele rompe com a lógica ...

Quando o adeus já se anuncia — luto antecipatório, espiritualidade e o papel da psicologia

Às vezes, a perda começa antes do “dia do adeus”. O diagnóstico de uma doença grave, a deterioração de alguém querido ou a consciência da finitude podem provocar uma dor antecipada — um sofrimento que mistura medo, saudade, ansiedade, culpa, esperança e desesperança. Esse processo longo, difuso, muitas vezes invisível aos olhos de quem não vive diretamente, é o que chamamos de luto antecipatório. Para quem experiencia esse tipo de dor, a espiritualidade e o cuidado psicológico podem se tornar companheiras fundamentais — caminhos de acolhimento, simbolização e (re)significação da vida e da morte. O que é luto antecipatório — sob a luz da psicologia e da psicanálise O luto antecipatório é entendido como o “enlutamento” que ocorre antes da perda real — quando a morte ou a perda já é esperada. Esse tipo de luto envolve não apenas o sofrimento frente à possibilidade da perda futura, mas também o luto de vivências perdidas no presente: saúde, autonomia, projetos, sonhos, relação plena c...

“Parasocial”: a palavra de 2025 que revela nossos vínculos modernos — e o que a psicologia tem a dizer sobre isso

Recentemente, o Cambridge Dictionary elegeu parasocial como a Palavra do Ano de 2025. Mas o que esse termo, até então mais usado em contextos acadêmicos, nos diz sobre como estamos vivendo hoje — especialmente nas redes sociais, com celebridades, criadores de conteúdo, personagens fictícios e até inteligências artificiais? O que significa “parasocial”? De acordo com o Cambridge Dictionary, “parasocial” descreve uma conexão que alguém sente com uma pessoa famosa — ou personagem de livro/filme/TV, ou até uma IA — mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Traduzindo no bom e velho português: é aquela sensação de “conhecer íntima e profundamente” alguém que, na verdade, vive num universo diferente — e que provavelmente nem sabe que você existe. Por décadas esse fenômeno foi associado à televisão, roteiros e ídolos distantes. Mas hoje, com redes sociais, streaming, podcasts e inteligência artificial, a “intimidade” parasocial se multiplicou — e com ela, o impacto emocional. Por que “par...

“Rage bait”: a palavra do ano da Oxford — e o que isso diz sobre nós

Todo ano a Oxford escolhe uma Palavra do Ano — uma expressão que captura o clima cultural do momento. Em 2025, o termo eleito foi “rage bait”. E, apesar do nome em inglês parecer meio distante, o fenômeno é muito mais próximo do que a gente imagina. Afinal, o que é rage bait ? “Rage bait” é qualquer conteúdo criado com a intenção de provocar indignação — posts que cutucam, inflamam, irritam, polarizam, e fazem você clicar, comentar, discutir, compartilhar. Não importa se a pessoa concorda ou discorda: importa que ela reaja. É o famoso: “Quanto mais raiva, mais engajamento.” E isso funciona porque o algoritmo ama emoção intensa — e a raiva, infelizmente, rende mais do que quase qualquer outra emoção. Por que caímos nesse tipo de armadilha emocional? A psicologia tem algumas respostas bem claras: Nosso cérebro é viciado em economia de energia Quando somos afetados por algo que gera raiva, o cérebro entra no modo reação: é mais rápido reagir do que refletir. A amígdala (centro...

Scrooge e a Psicologia da Transformação: o que o velho avarento nos ensina sobre mudança

Poucos personagens da literatura são tão emblemáticos quanto Ebenezer Scrooge, o velho avarento de Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Sua figura rígida, fria e indiferente é tão marcada que virou sinônimo de mesquinharia e dureza emocional. Mas o que talvez passe despercebido é que Dickens criou, ali, um retrato psicológico preciso de alguém profundamente ferido — e mostrou como a mudança humana, mesmo quando difícil, é possível. Neste texto, vamos olhar para Scrooge pela lente da psicologia: o que o tornou quem ele era, o que abriu espaço para a mudança, e como essa transformação pode inspirar pessoas reais. Quem é Scrooge? Um homem endurecido por suas próprias defesas À primeira vista, Scrooge parece simplesmente mau: grosseiro, avarento, emocionalmente distante, incapaz de empatia. Mas, psicologicamente, ele é um exemplo claro de alguém que desenvolveu defesas rígidas para sobreviver a experiências dolorosas. Solidão na infância Dickens nos mostra um garoto deixado sozi...

O Coelho e a Tartaruga: uma leitura psicanalítica sobre tempo, desejo e o ritmo singular de cada sujeito

A fábula clássica O Coelho e a Tartaruga costuma ser lida como uma lição de moral simples: a pressa é inimiga da perfeição, a constância vence a impulsividade. Mas, quando olhamos pela lente psicanalítica, emergem camadas mais profundas — sobre desejo, narcisismo, modos de existir e a relação singular de cada sujeito com o tempo. O Coelho: velocidade como defesa O coelho corre porque pode — e talvez porque precisa. Sua velocidade, quando vista simbolicamente, pode ser compreendida como uma defesa: uma resposta ao desamparo, ao medo de não ser “bom o bastante”, à necessidade de provar constantemente seu valor. Na Psicanálise, observamos que certas hiperperformances surgem para tamponar angústias. O coelho não tolera o intervalo, o vazio, a pausa. A corrida o protege de encarar a própria fragilidade. É o sujeito acelerado, tomado pelo ideal de eu, capturado pela fantasia de potência. A Tartaruga: o tempo próprio como ato de resistência A tartaruga, por outro lado, caminha num ri...