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Análise psicológica do filme As Horas ( contem spoiler)

O filme nos apresenta a história de três mulheres e entrelaça algumas crises pessoais por cada uma das atrizes. Em um primeiro cenário, ambientada na Inglaterra pós-guerra, nos apresenta a elaboração do romance de Virginia Wolf: “Mrs. Dalloway”. Este contexto inicial e necessário permite compreender a trama e a influência desta obra citada dentro do filme As Horas, dirigido por Stephen Daldry. Mrs. Dalloway é, sem dúvida, um dos romances mais conhecidos de Virginia Wolf, que narra a história de uma mulher, Clarissa Dalloway.

Não por acaso há uma menção importante e presente na vida das personagens: "Você sempre dá festas para cobrir o silêncio". Este silêncio como experiência piscológica, onde as palavras não habitam, onde o sujeito é desconhecido, a realidade grita e aponta a angústia, em que as 3 mulheres do filme não elaboram seus sentimentos e, repetidamente, insistem em suas experiências particulares de dor e sofrimento.

A luta das mulheres no filme é a luta incessante contra as trevas, que surge na frase: "como um peixe habita os mares profundos, e nada nas trevas, percorrendo arbustos de mato gigantesco" Em um determinado momento, na estação dos trens, Virginia expõe ao seu parceiro esta angústia cíclica e repetida: “Estou lutando contra as trevas, sozinha nas trevas”, a escuridão e o silêncio passam a representar no filme aquilo da ordem do indizível: a continuidade de um vazio sem nome, que traz uma desesperança.

O filme mostra, sem muito desvio, a repetição de sentimentos e sua hesitação em resolver os problemas. Richard sabe disso e diz ao amigo: “tu sempre dás festas para encobrir o silêncio”, frase intensa pela profundidade que contém.

No âmbito relacional, percebemos o modo de agir das personagens: Virgínia escreve, Laura lê e Clarissa atua. No entanto, todas são a Sra.Dalloway, separadas pelo tempo, cada uma em uma época distinta. Porém, o mesmo modo, a mesma emoção as une. Em algum momento de suas existências, elas identificam o vazio: Laura se levanta um determinado dia, porém reconhece que está triste, sem brilho, tendo como único objetivo, fazer é um bolo para o marido que faz aniversário. Procura em todo os momentos ser a esposa perfeita, ser exatamente o que se espera dela: cuidar de seu filho e ser a mãe e dona de casa perfeita. Tudo isso é mostrado com bastante clareza: há um de decepção ao perceber-se tão comum. De certa forma, sua vida está em desacordo com seus desejos íntimos: ela não quer estar nesta posição, ela quer viver.

Assim, ao reconhecer sua angústia Laura se invade de suas fantasias e há um conflito: ser a esposa e mãe perfeita não é uma resposta suficiente para seus desejos, retornando ao convívio de seu abandono. A sua realidade aponta fortemente o vazio interior presente. Este desamparo também é explícito em uma cena em que o filho de Laura aparece construindo uma casinha de brinquedo e depois a destrói, sendo uma bela e sintética metáfora do que acontece com sua mãe, ou seja, a construção de uma vida fantasiada e sua conseqüente destruição. E ele, ao ter esta energia visionária, se entrelaça mais uma vez a outra personagem. Virginia Wolf confirma ao marido:"O poeta morrerá, o visionário".

Não há vida possível que sobreviva de fantasias. E as três personagens necessitam elaborar este tema, este vazio dentro de seus aparelhos psíquicos. A personagem Clarissa não elabora seus sentimentos, há uma dualidade de silêncios e gritos dentro dela. Ela vivencia um momento dolorido de sua existência relacionado à finitude. Em sua vida há um pensamento contínuo e nominável, traduzido pela morte, a morte de seu amigo Richard, que também é sua própria morte. Nas inconstências do atuar com o amigo, o silêncio surge, e na tentativa de sufocar este vazio, a única saída que encontra é organizar uma festa, preocupar-se com seus detalhes, compras, rosas, e as horas.

Richard diz para Clarissa: "Para quem você está dando essa festa?". Tanto Laura quanto Clarissa vão pelo imaginário: ser a organizadora da festa, ser a esposa / mãe perfeita, ser a anfitriã, a boa amiga.

Palavras não nossas, mas Clarissa está em sua cozinha quando sua amiga fala com ela. Sua festa é uma tentativa de nadar até a superfície e sair da escuridão, do fundo do Real, da angústia que a invade pela morte do amigo, seu recurso é o tratamento, o atrito ... Assim como as pulsões levantadas por Virgínia e Laura.

É o tempo, as horas, os minutos, os segundos, o acontecimento , a evolução da vida, a repetição incessante, o tropeço e o desengajamento sem sucesso do Real. As horas são o que separa um do outro, a distância que separa dois amantes, a morte como cessação, a morte do desejo, Virginia escreve ao marido: "Sempre os anos entre nós ... o tempo sempre ... entre nós as horas"

Richard fala: "Ainda tenho que enfrentar as horas depois da festa" , a festa é véu, é ficção, um perfeito alusão ao que abarca as horas: a própria vida. A mensagem do filme não é pessimista, é otimista em certo sentido, de ver a vida pela frente, não pelo que você quer, mas aprender a viver pelo que ela realmente é. Laura demonstra isso, aposta no desejo, abandona família, filhos e marido, mas não sem pagar o preço da angústia, no final do filme dirá referindo-se à sua antiga vida: “foi a morte ... eu escolheu viver . " O filme não mostra outra coisa senão o silêncio. É precisamente a ausência que torna impossível saber da morte, do desejo, do próprio corpo, e as três mulheres do filme dão conta, assim, da experiência do vazio, da angústia, da dimensão do outro.

Por meio da técnica cinematográfica, temos a identificação e a reflexão de emoções, sentimentos e atuações típicos de pessoas acometidas por diferentes graus de depressão. A diferença de épocas e a interligação entre as personagens demonstram, ainda que vividas de forma particular por cada um dos personagens, a generalidade e a atemporalidade dos das condutas depressivas e suicidas, como aparecem em alguns momentos no roteiro.

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